segunda-feira, 21 de abril de 2014

Como diminuir o consumo excessivo de CPU do Copy

Eu já escrevi anteriormente sobre o Copy, um bom substituto para o Dropbox, que oferece muito mais espaço de armazenamento gratuito e possui bons recursos como diferencial.

Acontece que durante meus testes, percebi que ele estava consumindo muita CPU; ao ponto de deixar a máquina bem mais lenta (girando por volta de 45% da CPU, com picos de 70%). Como estou divulgando bastante a ferramenta, me senti na responsabilidade de compartilhar essa solução com os amigos e pessoas que acompanham meu blog.

A SOLUÇÃO


A primeira coisa a fazer é abrir o menu de configurações do programa e desabilitar a opção "Allow local peer discovery and sync" na aba "Network" (é preciso reiniciar o programa para que a opção tenha efeito).

A segunda opção é iniciar o programa com o atributo --daemon. Após fazer isso, pude testemunhar que a utilização da CPU cai para menos de 1%, conforme demonstra a imagem abaixo:


Para fazer com que o programa inicie sempre com o atributo --daemon habilitado, devemos alterar o script de inicialização. Para isso, edite o arquivo CopyAgent.desktop que se encontra no diretório ~/.config/autostart.

Para isso eu costumo usar o vi, mas você pode utilizar o editor que se sentir mais confortável. Abra o terminal (Ctrl+Alt+T) e digite:

vi ~/.config/autostart/CopyAgent.desktop

Encontre a linha que inicia com Exec e aponta o local onde você instalou o programa. No meu caso, a oção encontra-se dessa maneira:

Exec=/opt/copy/CopyAgent

e acrescente o atributo --daemon ao final de forma a ficar com o seguinte conteúdo:

Exec=/opt/copy/CopyAgent --daemon

Pronto! Da próxima vez que você acessar a sua conta, o Copy já estará utilizando essa opção como padrão, diminuindo o consumo de CPU.

Se você ainda não conhece o programa, não deixe de usar este link, de forma a ganhar 5Gb extras de armazenamento gratuito: https://copy.com?r=lLJ26T

domingo, 6 de abril de 2014

Abaixo, a entrevista que fiz com Larry Wall, criador da linguagem Perl em sua última passagem no Brasil, durante uma conferência de Perl. A tradução é de Rina Noronha.


Lançada em 1987, Perl é uma linguagem que tem como objetivo ser flexível e capaz de fazer códigos funcionais. Seu criador, Larry Wall, fez praticamente todo o processamento de texto em sistemas baseados em Unix, utilizando diversas ferramentas, como AWK, ‘sed’, C e linguagens shell script. A ideia era juntar as principais vantagens de todas essas linguagens: expressões regulares do ‘sed’; a identificação de padrões de AWK; a profundidade de C; além da sintaxe baseada tanto em C quanto em Shell Script.

Fonte: http://bit.ly/11jS26r
Fonte: http://bit.ly/11jS26r


Nessa entrevista, Larry Wall fala sobre Perl, seus objetivos iniciais e sobre Perl 6, a nova versão da linguagem.

Qual é a sua formação, o que você estudou na faculdade?

Eu estudei muitas coisas, diversas, e quase não consegui concluir nada porque não tinha créditos suficientes para nenhum curso. Mas, no final das contas, consegui fazer com que a faculdade deixasse eu me formar. Entre as coisas que estudei estão programação e linguística, dois assuntos que foram primordiais para que eu chegasse ao Perl. Mas também fui bem além disso, passando por química e música, por exemplo.

Por que você decidiu estudar computação? O que te chamava a atenção?

Bom… você pode conseguir que os computadores façam coisas que as pessoas acham interessantes!

A verdade é que eu provavelmente estou em algum lugar dentro do espectro do autismo. Sendo assim, eu tenho uma enorme dificuldade em lidar com pessoas. Eu consigo fazer isso, mas é um grande estresse para mim. Então, poder se relacionar através de algo que eu faço e que os outros vejam o que eu fiz, mas sem necessariamente ter que discutir com alguém sobre o tempo ou outros assuntos assim, é uma forma de me tornar social.

Meu pai é um pastor de igreja cristã e eu cresci nesse ambiente. Como o “filho do pastor”, eu não podia ser tímido, mesmo sendo assim naturalmente. Então, ao longo dos anos, eu aprendi a me relacionar com as pessoas, mas foi algo que eu tive que aprender, que desenvolver, e por isso às vezes não é fácil. Para alguém como eu, isso não é fácil. Para mim, é mais gratificante fazer alguma coisa que as pessoas vão achar útil. Por isso, eu tenho a tendência de medir o meu próprio trabalho não pelo que eu vou conseguir com ele, mas pelo que eu posso oferecer a partir dele. E eu entendo que isso é o que define uma pessoa, não quanto dinheiro ela tem.

Foi por isso que o Perl entrou na sua vida?

Foi quase um acidente. Eu apenas queria oferecer uma coisa para os outros. E isso era bem difícil porque não havia uma cultura desse tipo. Então eu pensei em uma forma de oferecer coisas aos outros livremente. E algumas dessas coisas, como o programa “patch”, acabaram por ajudar a iniciar o movimento de software livre, porque muitas pessoas passaram a trocar patches.
Há anos, no tempo em que as redes tinham uma largura de banda muito pequena, as pessoas não podiam simplesmente enviar uma nova cópia dos recursos. Mas se isso fosse um arquivo de patch, as pessoas poderiam manter seus softwares sincronizados.

Eu realmente não consegui fazer com que as pessoas aplicassem os patches na primeira versão que eu enviei. Eu enviava os patches e as pessoas não aplicavam um ou outro, porque não era necessário na máquina deles. Mas aí um terceiro patch viria e bagunçaria tudo, porque ninguém tinha aplicado o outro anterior. Então eu percebi que precisava achar uma forma para encorajar as pessoas a manterem seus softwares sincronizados, assim, quando um outro patch fosse enviado eles aplicariam a mesma versão. Então, uma das coisas que foi internalizada pelo programa de patch desde o início foi um pré-requisito que determinava que uma certa versão do patch deveria estar instalada.
A segunda versão foi muito mais fácil de manter porque que as pessoas já estavam usando, ao menos até quando chegamos ao ponto delas começarem a colocar repositórios na rede e a fazer isso de forma bastante automática. E o programa Patch ajudou a fazer o bootstrap, mais ou menos da mesma forma que o Perl ajudou a fazer o bootstrap na web do início; hoje, mesmo que muitos sites não usem mais a linguagem, muitos foram prototipados em Perl.
Acho que sou uma dessas pessoas que escrevem protótipos para depois jogá-los fora!

Por que você decidiu escrever o Perl?

Para matar uma vontade! Na verdade, eu estava com um problema que precisava de processamento de texto para gerar relatórios.

Eu estava em um projeto para a NSA (National Security Agency, a agência de segurança do governo americano), a empresa tinha um contrato lá e eu estava desenvolvendo uma “rede segura” por toda a costa entre Santa Mônica, na Califórnia, e a Pensilvânia. Nós trocávamos informações por meio de arquivos de texto sobre o projeto, mas eles queriam relatórios sobre os arquivos de textos e o sistema Unix com o qual trabalhávamos tinha uma versão muito antiga do awk.

A gente estava fazendo um trabalho de processamento de textos e eu não conseguia fazer o que queria nos relatórios. Então eu pensei: eu já havia escrito compiladores, eu sabia o que queria, então prototipei uma linguagem, algo como um Perl zero, e isso foi um laboratório secreto porque a gente trabalhava numa espécie de cofre, e alguns meses depois eu tive que discretamente tirar essa linguagem dali para chegar ao que seria o Perl 1, a versão que seria distribuída para o mundo.  Eu queria apenas conseguir repassar alguns arquivos de texto e extrair algumas informações de algumas expressões regulares em um formato de texto meio aleatório e colocar no relatório e buscar por aquilo online.

Como isso se transformou no Perl que temos hoje?

Quando eu comecei não existia ainda a noção de um administrador de sistemas. Havia o que a IBM chamava de Programador Chefe – o cara número um, que sabia como tudo funcionava. E eu meio que já havia estado nessa posição em meu trabalho na Seattle Pacific University e também quando trabalhei em uma empresa de desenvolvimento de sistemas.  Eu fui contratado para essa posição, mas o ideal desse cargo é meio diferente do que é um administrador de sistemas, quando você tem outras pessoas fazendo a programação e gerenciar o sistema de um ponto de vista operacional torna-se um trabalho de tempo integral. Nessa época meu cunhado me falou “ah, você não quer se tornar um administrador de sistemas, isso é um trabalho morto”.

Mas enquanto eu estava fazendo isso, eu continuei desenvolvendo o Perl, então não era apenas uma linguagem para fazer análise de texto, eu decidi que queria também fazer uma parte de administração de sistema, como renomear arquivos e todas as funções de um admin. Então eu tive isso bastante no Perl também. E nas várias interfaces do sistema.

E aí as pessoas começaram a adicionar interfaces aos bancos de dados, através de versões especiais do Perl. Então havia o OraPerl, para o Oracle, o SybPerl para Sybase. E foi então que eu percebi que havia um problema: o que aconteceria se você quisesse usar Oracle e Sybase no mesmo programa? Seria preciso ter extensões que ajudassem a colocá-los juntos no mesmo programa.
Então, acho que o Perl mudou um pouco com essa ideia de ter várias caras, o que o levou a ter extensões que conversassem com vários backends de bancos de dados. A ideia de fazer uma interface com objetos de forma que fosse possível falar mais sensivelmente com pessoas.

Foi dessa noção que o Perl 5 nasceu, com uma boa dose de extensibilidade. Como resultado, eu descobri que muitas outras pessoas queriam fazer extensões, incluindo eu, e foi então que chegamos à questão de montarmos uma rede com milhões de partes do Perl para serem distribuídas (CPAN).
E isso tudo foi feito no Perl 5. Você poderia adicionar texto como em um programa em C – você até podia incluir texto em Perl 4, mas isso não funcionava direito para modelos de interface, e isso a versão 5 tem. Não havia uma forma de fazer uma interface para níveis mais baixos como códigos em C e C++, então isso começou com Perl 5.

Fonte: http://bit.ly/1e6kJWY
Fonte: http://bit.ly/1e6kJWY

Enquanto você criava o Perl, que linguagens vocês tinha em mente?

A maioria delas. Basicamente as linguagens com as quais eu era familiarizado – ou que eu pensava que fosse – foram as que me influenciaram. Algumas pessoas pensam que havia influência de linguagens como SmallTalk, mas não é verdade. Ao menos até o Perl 6 – agora, sim, teremos alguma influência do SmallTalk.

SmallTalk foi a primeira linguagem orientada a objetos, não é?

Bom, você pode dizer que sim… Mas existiam outras antes. SmallTalk realmente levou isso para um outro extremo, do ponto de vista que um objeto é algo para o qual você envia uma mensagem, não apenas uma função de call engraçadinha. Então, eles tinham uma visão mais global.

Mas não havia uma influência direta da SmallTalk, ao menos não até o Perl 6.

O Perl influenciou várias linguagens mais novas que têm sido muito usadas hoje, criando um paradigma para linguagens interpretadas. Como você enxerga isso?

Com certeza Ruby e Python tiveram uma influência inicial do Perl. Na verdade isso não foi planejado no Python.

O Perl meio que estabeleceu, ao menos no mundo do Unix, esse gênero de linguagens de script. Havia Shell – e você podia escrever em Shell Script – mas na verdade isso sempre foi pensado como uma forma de unir os programas em C. E porque elas eram construídas dessa forma? Era bem difícil de fazer um programa decente com elas. Era difícil fazer com que as coisas se relacionassem. E como todo mundo tinha um cliente Unix diferente, era bem difícil escrever um Shell Script naquela época.

E por que escolher uma linguagem de script?

Porque é muito mais rápido em termos de tempo de programação. Pode não rodar tão rapidamente, mas para operações de chamada, funciona rápido o suficiente.

Em alguns benchmarks uma linguagem de script poderia até bater um programa em C mais bobo porque você teria que trabalhar muito para otimizá-lo e o Perl já tem isso, então pode fazer um array associativo que provavelmente será mais eficiente que uma tabela feita em C. Assim, em operações comuns, é possível otimizar o código em C para o código em Perl.
O problema primordial que queríamos resolver era a perda de tempo dos programadores em ter que manter anotações de ponteiros, strings, arrays, gerenciamento de memória e tamanhos de buffer; as ferramentas do Unix, na época, tinham limites muito arbitrários.

Uma das maiores motivações para começar o Perl foi “eu quero que as strings me digam o que elas são”. Não há limites arbitrários aí. E nós levamos esse conceito para outras áreas também. Para começar, nós queríamos tipos de string que você simplesmente não precisasse se preocupar.

Quais são as maiores mudanças no Perl 6?

Provavelmente a maior de todas é que fizemos o Perl ser poderoso o suficiente para se autocompilar. E eu espero que isso aconteça em qualquer VM. Já temos compiladores de Perl 6 para Mono e .Net, estamos trabalhando no Java. E existem algumas ideias para usar isso no LLVM.

Queremos que a linguagem seja poderosa o suficiente para isso e o seja de forma eficiente, para quebrar a si mesma, para que possa mudar a linguagem quando decidirmos mudá-la, para ter novas versões de Perl e para ser capaz de escrever em outras linguagens de domínio específico que sejam melhores que o Perl.

As gramáticas inseridas no Perl 6 são poderosas e muito expansíveis. Provavelmente se você tiver que colocar uma única coisa no topo da lista, seria isso. Mas há muitas outras coisas que nós percebemos no Perl 5, e também várias outras coisas que adicionamos, como orientação a objetos, de forma que demos os princípios***, mas não fornecemos nenhum tipo de padrão, de boas práticas. Então as pessoas fizeram as suas próprias regras. Foi um ótimo laboratório de testes, mas então existiam 30, 40 formas de escrever objetos e eles não se comunicavam, não trabalhavam um com o outro.

Gostamos da flexibilidade de ter esses laboratórios para os princípios, mas no Perl 6, quando vemos que há muitas formas de se fazer algo no Perl 5, decidimos que vamos escolher uma dessas formas como padrão. Continuaremos com os princípios, mas eles ficarão por baixo de uma camada de padrões, então teremos uma forma padrão de declarar classes, de incorporar classes abstratas, que chamamos “roles” genéricos, que são formas padrões de fazer várias cosias, que podem ser modificadas se você realmente quiser ou precisar, mas esperamos que os padrões ajudem as pessoas a escreverem códigos melhores quase que por acidente.

Não vai ser preciso entender porquê aquele é o padrão, mas quando as pessoas tentam fazer suas coisas, na metade do tempo eles decidem pela forma errada… então não é que queremos chegar ao nível do Python, dizendo que há apenas uma forma de fazer aquilo, mas vamos tentar facilitar a forma correta, a melhor forma, para fazer aquilo, meio que por acidente.

Bom, eu meio que estou levando o processo do Python para o Perl 6.  O modelo é realmente “pegar emprestado” o novo modelo de objetos de várias fontes. E na verdade, trata-se de pegar diretamente da literatura de orientação a objetos, mais do que de alguma linguagem específica.

Você acha que seu background em linguística ajuda nisso?

Acho que sim, mas muito além disso é o sentimento de que uma linguagem de programação deve refletir a forma como falamos sobre isso, então se você quer falar que um objeto está relacionado (has a relationship) a um determinado atributo, você deve realmente usar o termo “have” para declarar isso no Perl 6. Se ele é um relacionamento (is a relationship) você usa o “is”.

É uma questão de sensibilidade linguística, então, ao invés de chamar coisas por outros nomes, usamos a construção que temos no Inglês. É algo mais natural do que usar palavras funcionais, como acontece em outras linguagens.

Mas isso muda muito a sintaxe da linguagem? O Perl 6 vai ser muito diferente? E como fica a retrocompatibilidade?

Há um grande número de diferenças. No geral, a sintaxe do Perl 6 é um super set do Perl 5. Se você escreve em Perl 5 e isso não funciona normalmente, vai estar bem perto de funcionar, porque você pode escrever em Perl 6 dentro do sub set que é muito parecido com Perl 5.

Não é exatamente a mesma coisa, mas o que fizemos no Perl 6 foi intencionalmente quebrar a retrocompatibilidade. Queremos quebrar tudo o que for possível, essa foi a ideia inicial. Então, vamos precisar de alguma estratégia de migração, uma combinação de emulação, interpretação cooperativa ou tradução, por exemplo. Existem várias formas de fazer com que os códigos das versões 5 e 6 da linguagem interajam. Teremos aí um caminho.

Mas quando você começar a ver as novidades que o Perl 5 não suporta diretamente, então vai começar a usar a sintaxe, mas nós tentamos adicionar as novidades de uma maneira bem sistemática, de forma que todas as declarações sejam similares.

O Perl 6 tem muito mais sintaxe a ser declarada que o Perl 5, mas funciona de uma forma bem diferente. Na versão 5, você pode declarar as classes, mas tem que usar a palavra package. Você pode dizer que classes são pacotes, então usa a palavra package. Isso também acontece no Perl 6, uma classe é um pacote, mas você usa class. Então, em vez de ir para a palavra-chave do princípio, tendemos a distinguir a palavra-chave e então falar que uma classe é um tipo. Isso torna as coisas mais claras.

Ao mesmo tempo, muitas coisas que você faz ao executar código no Perl 5 parecem declarações no 6, mas na verdade não está rodando um código por baixo, então quando você roda uma declaração de classe, está na verdade fazendo uma chamada do protocolo do meta objeto enquanto compila, e pode até fazer um hook se quiser.

Portanto, você ainda tem toda a flexibilidade, mas nós a escondemos sob um nível de declaração. Assim, há um mapeamento mais natural entre o que as pessoas pensam e o que a sintaxe se parece.
 
Nesse nível, é uma linguagem mais complicada, sintaticamente, mas em termos de conceito não é, porque exitem os mesmos conceitos.

Então, o estado da arte da programação em Perl 5 tem um conjunto de conceitos que se encontram muito bem no Perl 6, mas na nova versão eles estão mais bem elaborados, como em “aqui temos um padrão que você deve usar, a não ser que você realmente saiba o que está fazendo”.

Qual a importância de Perl hoje, e como você espera que a linguagem esteja no futuro?

Bom, é claro que eu quero que Perl domine o mundo! Eu adoraria ver Perl 6 se tornar poderoso o suficiente de forma que o Google algum dia dissesse “ah, nós não precisamos mais de Python ou algo assim”. Mas é claro que isso é um objetivo a longo prazo. E provavelmente nunca chegaremos lá, mas, ainda assim, é bom ter objetivos impossíveis contanto você entenda que eles são impossíveis. Eu quero continuar trabalhando neles de qualquer forma. Mesmo que você saiba que o que está fazendo irá, de alguma forma, falhar, você deve fazer tudo o que puder para isso. O mundo está cheio de coisas uteis que tiveram grandes falhas e eu acho que Perl 6 vai ser muito útil!
 
Mas estamos realmente pensando no longo prazo. Desde que começamos, pensamos em fazer parte do progresso no início. Mas o Perl 5 estava reconhecidamente estável e tinha muito apoio da comunidade, o que nos permitiu gastar um bom tempo no redesenho.

 Como é o relacionamento da comunidade de desenvolvedores brasileiros com Perl?

Os brasileiros são envolvidos com Perl há bastante tempo. Temos muita gente contribuindo com Perl 5 e 6 no Brasil. E os brasileiros têm a grande vantagem do fuso horário: vocês estão entre EUA e Europa, o que facilita muito o trabalho!

Texto de minha autoria, publicado no portal iMasters: http://imasters.com.br/linguagens/perl/entrevista-larry-wall/

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Copy, um ótimo substituto para o UbuntuOne: igual ao Dropbox, só que melhor

Dropbox, o pioneiro


Quase todo mundo já deve ter ouvido falar do Dropbox, o programa que sincroniza facilmente os seus arquivos entre múltiplos dispositivos e com a nuvem. Se você não ouviu, deveria, pois ele facilita muito o trabalho em grupo e o compartilhamento de arquivos com conhecidos.

Da próxima vez que precisar enviar aquele vídeo de 78Mb para o seu amigo, pense duas vezes antes de anexar o arquivo por email. Enviar pelo Facebook pode ser uma alternativa melhor, mas também está longe do ideal.

Enfim, programas como o Dropbox são utilizados por milhões de pessoas diariamente e fica difícil até mesmo pensar em como vivemos tanto tempo sem isso: facilidade para acessar seus arquivos via web ou de ter a última versão do documento magicamente disponível em todos os seus dispositivos, sejam eles laptops, desktops, smartphones ou tablets.

Contudo, parece que todo mundo quer ter um programa deste tipo: Google Drive, Microsoft OneDrive, SugarSync, Box.com e alternativas livres como o ownCloud e o SparkleShare surgiram para fazer frente à liderança do Dropbox. Até mesmo a brasileira Locaweb possui um serviço semelhante, o GoDrive.


UbuntuOne, meu favorito (até agora)


Contudo, um dos serviços que eu mais gostava será extinto em breve. Trata-se do UbuntuOne. Os motivos para isso eram simples:
  • assim como o Dropbox, ele tem clientes para múltiplas plataformas incluindo Windows, Android, iOS, Mac OS e obviamente, GNU/Linux.
  • ele tem a vantagem de fazer streaming das suas músicas salvas no serviço.
  • as músicas compradas na loja do Ubuntu One Music Store eram salvas no seu Ubuntu One, ficando assim automaticamente disponíveis sem que isso fosse descontado do seu espaço de armazenamento
  • o cliente tem o código fonte aberto.
Mas além de tudo isso, o que eu mais gostava nele era a possibilidade de escolher quais seriam as pastas do sistema seriam sincronizadas, sem que todas elas estivessem que estar dentro de uma pasta específica, como acontece com o Dropbox.

Contudo, foi anunciado recentemente que o serviço UbuntuOne será descontinuado. As justificativas são de que o mercado se tornou muito competitivo para esse tipo de produto e que para continuar no jogo, a Canonical teria que fazer investimentos pesados na área, coisa que eles parecem não estar dispostos a fazer neste momento.

A notícia boa disso tudo é que eles anunciaram que vão liberar o código fonte do programa. Uma vez que o cliente já é aberto, isso só pode se tratar do server-side, o que seria bastante interessante.


Copy, a alternativa peso-pesado

Logo do Copy
Por coincidência, soube recentemente de um serviço que tem tudo que o Dropbox tem, com uma vantagem muito importante: mais espaço gratuito. Trata-se do Copy da fabricante de discos rígidos Barracuda. Com ele, além do acesso web e de aplicativos para as diversas plataformas, você já começa com 15Gb logo de cara e recebe mais 5Gb por recomendação. É três vezes mais do que oferece o Dropbox e no caso de indicações, 10 vezes mais.

Não é a toa que eu passei a usá-lo e estou bastante contente. Vendo essas e outras características, não é a toa que a Canonical decidiu parar de competir nesse mercado.

Se você ficou curioso e resolver dar uma chance ao programa, utilize esse link https://copy.com?r=lLJ26T e ganhe os 5Gb extras após instalar o programa, de forma a começar já com 20Gb. Depois, não se esqueça de deixar um comentário aqui e dizer o que achou da experiência.

Editado 09/04/2014: algo que eu havia deixado de fora e que considero importante, é dizer que o Copy também roda no Raspberry Pi, algo que eu sempre quis que o Dropbox fizesse.

domingo, 30 de março de 2014

Alfabetização digital: desafios e perspectivas para um mundo em transformação

Eben Upton, Rob Mullins, Jack Lang e Alan Mycroft, pesquisadores do Laboratório de Computação da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, estavam preocupados com o declínio que presenciavam ano a ano no número e na qualidade das habilidades computacionais dos alunos que ingressavam para o primeiro ano do curso de Ciência da Computação. Desde os anos 90, quando a maioria dos ingressantes já chegava sabendo programação por hobby, o cenário a partir dos anos 2000 começou a ficar bem diferente, com o calouro típico tendo apenas alguma experiência em web design.

Para eles, alguma coisa havia mudado a forma como as crianças interagiam com os computadores. Alguns problemas foram identificados: a propagação de lições sobre como usar Word, Excel e a criação de páginas web nos currículos das aulas de informática do ensino básico, o fim da bolha ponto-com, a ascensão dos computadores pessoais e dos consoles de videogame que substituíram as máquinas Amigas, BBC Micros, Spectrum ZX e Commodore 64, nas quais a geração anterior havia aprendido a programar.

Com o diagnóstico feito, havia pouca coisa que esse pequeno grupo de pesquisadores pudesse fazer para resolver o problema de um currículo inadequado nas escolas ou do fim da bolha financeira. Mas eles acharam que poderiam agir em relação ao fato de os computadores terem se tornado tão caros e obscuros, a ponto de os pais chegarem a proibir “experiências” com programação neles. Tentaram então encontrar uma plataforma que, da mesma forma como faziam aqueles computadores antigos, permitisse um ambiente de programação para experimentações com linguagens de programação e que os jovens se divertissem ao mesmo tempo?



Casos e projeto

Talvez você nunca tenha ouvido a história acima, mas muito provavelmente já ouviu falar do resultado prático que toda essa experiência resultou: trata-se das motivações por trás do Raspberry Pi, o computador de 35 dólares que anda revolucionando o mundo.

Agora, caso você ainda não tenha ideia do que é o Raspberry Pi, então isso só vem confirmar aquilo que eu vou dizer a seguir: estamos perdendo a oportunidade de educar nossas crianças e de estar entre os países que liderarão a próxima geração mundial.

Lá fora, há uma infinidade de projetos destinados a facilitar os primeiros passos dos jovens no universo mágico da programação, universo este onde seres humanos são capazes de “dobrar” os computadores, essas máquinas capazes de feitos maravilhosos, ao sabor de sua própria vontade.

O Media Lab do MIT (Massachusetts Institute of Technology), um dos departamentos de pesquisa mais respeitados de uma das instituições mais reconhecidas da área, já dedicou alguns projetos nesse sentido. É de lá que se originou uma das tentativas mais audaciosas no sentido de levar o conhecimento tecnológico às crianças, principalmente àquelas do terceiro mundo, que possuem proporcionalmente menos acesso à tecnologia do que as que se encontram em países desenvolvidos: o OLPC (ou One Laptop Per Child) teve início em 2005 com o objetivo de criar um laptop de 100 dólares, e crianças sem acesso algum a computadores poderiam ter o seu primeiro contato com a tecnologia.

É de lá também que veio o Scratch, linguagem de programação especialmente desenvolvida para crianças, mas, que ao contrário do Logo e de outras linguagens que a antecederam, tornou fácil a compreensão da lógica computacional e de outros fundamentos essenciais de programação sem que os pequenos tenham que se preocupar com detalhes tão comuns em outras linguagens como o uso de chaves, colchetes e pontos e vírgulas.

Computadores nas escolas e universidades

A introdução dos computadores como ferramentas de auxílio ao ensino se deu nas escolas públicas dos EUA ainda em meados dos anos 70, ganhando maior força na década seguinte. Aqui, o ensino de computação nos currículos escolares ainda engatinha e, quando já existe, reproduz a mesma lógica do aprendizado de Word, Excel e jogos (quando muito, jogos educacionais), coisas que as crianças de hoje aprendem sozinhas em casa.

Artigo fac-símile de jornal americano de janeiro de 197, relatando o uso de computadores como ferramentas de ensino em escolas públicas. Veja em http://bit.ly/1ipVRMj
 Se antigamente o computador era encarado como uma simples ferramenta de auxílio à aprendizagem, hoje já é possível ver valor no ensino da própria ferramenta computacional em si, através da introdução de alguma linguagem de programação, permitindo uma melhor compreensão do funcionamento da máquina e o exercício do gosto pela resolução de problemas.

Uma simples busca por livros sobre o tema em lojas online estrangeiras e brasileiras ou por artigos acadêmicos evidencia o enorme abismo que está se abrindo entre os países que estão adaptando seus sistemas educacionais para acompanhar as recentes mudanças ocasionadas pelo advento das tecnologias digitais e aqueles que ainda carregam o fardo de erros anteriores, como parece ser o nosso caso. Lá fora, é fácil ver a proliferação de livros sobre programação para crianças ou mesmo de teses que abordam a importância e as metodologias para a introdução do ensino de programação para os mais jovens.

Por outro lado, a situação do ensino superior de tecnologia no Brasil não é muito diferente e reflete a falta de discussão acerca do tema. De um lado, temos o ensino superior privado meramente mercantilista e que tem como objetivo final a inclusão do aluno no mercado de trabalho. Dessa forma, essas instituições adotam de maneira “cega” as soluções empurradas pelas grandes empresas do setor, na esperança de que isso ofereça a seus alunos alguma vantagem competitiva quando formados.

No entanto, apesar da inserção profissional ser um objetivo louvável, ela deveria ter como foco a capacitação das novas gerações para conseguirem criar as novas tecnologias, impulsionando o desenvolvimento tecnológico do próprio país como um todo, e não pela nossa eficiência em nos tornarmos excelentes consumidores de uma tecnologia que não entendemos e que nos é fornecida.

Já nas universidades públicas o problema é outro: currículos obsoletos, instalações e laboratórios inadequados e professores desatualizados são a fórmula para alunos desestimulados, o que resulta em uma elevada taxa de evasão nos cursos de tecnologia, desperdiçando o dinheiro público que foi investido na formação desses alunos até o momento em que eles abandonam o curso.

O problema se agrava com o acesso às plataformas de ensino à distância de grandes universidades dos países desenvolvidos, como Coursera, EdX e Udacity, que permitem antever o quanto estamos longe do ideal. Essas instituições utilizam o enorme volume de dados gerado pelos milhares de estudantes que acessam o conteúdo online para aprimorar ainda mais suas técnicas e metodologias de aprendizagem. Da forma tradicional, através do ensino presencial, seriam necessárias décadas de alunos formados para se obter a mesma quantidade de dados.

Problemas e caminhos para o Brasil

O resultado de tudo isso no Brasil é que falta mão de obra no mercado. Aliás, o que gera ainda mais preocupação ao nos depararmos com esse panorama é que os desafios e as dificuldades estão se acumulando; precisamos dar conta das expectativas de inclusão digital e ensino de programação nas escolas, ao mesmo tempo em que não resolvemos por completo os erros do passado. Estamos, hoje, tentando incluir os computadores no ensino ao mesmo tempo em que poucas são as escolas que possuem uma biblioteca, por exemplo.

Sem falar na questão da língua inglesa. Ainda hoje o ensino do idioma é bastante deficiente nas escolas brasileiras, o que se torna um grande entrave para uma maior inserção do país nas comunidades, fóruns e comissões mundiais de padronização tecnológica.

Nesse contexto, debates ultrapassados, que já foram superados há muitos anos em outros países, como o medo de que os professores sejam substituídos por computadores, ainda ecoa nos corredores dos círculos educacionais brasileiros pelos simples fato de que não ultrapassamos totalmente as barreiras da etapa inicial de inclusão dos computadores no cotidiano dos ambientes educacionais. Falta uma política pública para o tema, e os poucos exemplos que podemos contabilizar constituem-se de iniciativas isoladas, cujo impacto é bastante localizado.

A situação passa a ser mais alarmante quando comparamos a evolução que outros países dos BRICs – Rússia, China e Índia, alcançaram nos últimos 20 anos. Mesmo na América Latina, parece que estamos atrás de nações como Chile, México e até mesmo a Argentina.

Não há fórmula mágica para solucionar os problemas aqui expostos, mas parece ser urgente e necessário que os setores organizados da sociedade passem a se preocupar com questões desse tipo, incorporando a discussão do tema ao seu cotidiano e exercendo pressão sobre os meios políticos para que, a partir de uma ação efetiva, políticas públicas bem definidas sejam aplicadas ao setor. Só assim poderemos ter alguma chance de evitar que o inevitável aconteça e nos tornemos obsoletos, como 386s em um mundo Quad-core.

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Programação para crianças de todas as idades

Programas Open Source

  • KidsRuby: aprenda a programar usando Ruby;
  • Scratch: Ferramenta desenvolvida para a criação de pequenas animações e jogos a partir de programação;
  • Etoys: ambiente de programação visual e multimídia baseado no Squeak.

Aprenda a fazer páginas na web

Tutoriais online

  • Hackety Hack: ambiente gratuito com o objetivo de tornar fácil o ensino de Ruby a iniciantes;
  • Codecademy: lições práticas de Python, Ruby, HTML, CSS e APIs.

Faça robôs e apenda um pouco de eletrônica

  • Arduino: para qualquer um interessado em criar de objetos à ambientes interativos.
Artigo publicado no portal iMasters: http://imasters.com.br/gerencia-de-ti/tendencias/alfabetizacao-digital-desafios-e-perspectivas-para-um-mundo-em-transformacao/

quinta-feira, 27 de março de 2014

Marco Civil da Internet: é preciso agir agora

O Marco Civil foi aprovado na Câmara dos Deputados e agora é preciso a aprovação do texto no Senado, para que o projeto finalmente vá para sanção presidencial.

Abaixo, reproduzo um texto que escrevi para o portal iMaster sobre o assunto e que encontra-se disponível em: http://imasters.com.br/gerencia-de-ti/tendencias/marco-civil-da-internet-e-preciso-agir-agora/

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Pense e responda: você tem certeza, mas certeza mesmo, de que o atual marido da sua ex-mulher (que, por acaso, é um alto diretor da sua companhia telefônica) não acessa o seu histórico telefônico para saber com que frequência vocês ainda se falam? É muito provável que não. No entanto, tudo muda caso você tenha provas, ou mesmo fortes indícios, contra o atual marido da sua ex-mulher. Numa hipótese desse tipo, você teria plenas condições (e todo o direito) de processar, não apenas os indivíduos envolvidos, mas principalmente as empresas para a qual eles trabalham.

Empresas de telecomunicação possuem um grande poder, pois detêm a guarda de informações relativas à vida privada de toda uma sociedade. Por isso mesmo, o serviço prestado por elas é considerado de interesse público, o que submete esse mercado a um controle governamental mais rígido, afinal, trata-se de um serviço de fundamental importância. E elas possuem plenas condições técnicas de monitorar um indivíduo. No entanto, a Constituição Brasileira está do lado do cidadão, garantindo a ele o direito ao sigilo de sua vida privada. A lei garante que os dados que você cria ao utilizar os serviços dessas empresas , são seus, e não delas. O fato de você utilizar a infraestrutura das companhias para gerar esses dados não muda que os dados são sempre seus.

marco-civil-empresarios


E mais do que isso, essas empresas têm a obrigação de zelar pelos seus dados privados, podendo inclusive ser responsabilizadas caso permitam o vazamento de informações fora dos contextos previstos em lei: processos e investigações criminais mediante autorização judicial. Diante disso, sua empresa de telefonia pode ser processada caso permita que seu histórico telefônico vá parar nas mãos de terceiros sem autorização para isso.

Parece óbvio, mas nem sempre foi assim. Foi necessário muito tempo até que nossa sociedade chegasse a essas conclusões e o direito à privacidade se constituísse como fundamental. Basta lembrar que na idade média o senhor feudal – e mais tarde o rei – possuía autoridade sobre a vida pública e privada de seus servos, e que há pouco mais de 200 anos o Senhor de Terras agia da mesma forma com seus escravos. O direito à privacidade nasce, portanto, com o surgimento da República: a separação entre Estado e Sociedade resulta na separação entre vida pública e privada.

Apesar disso, os contornos de questões relativas à privacidade eram bem mais delineados no passado. Hoje, as fronteiras não são mais tão nítidas como costumavam ser . Até onde vai a privacidade alheia e tem início a vida pública? E, quando se trata da Internet, regras como as descritas até aqui parecem não ter a mesma validade. Na verdade, a lógica parece ser justamente o inverso.
Como não há leis que garantam a privacidade dos dados digitais dos indivíduos frente ao poder das corporações de Internet, estes se encontram totalmente desprotegidos a partir do momento em que aceitam termos de serviço “leoninos”, ou seja, desiguais, que garantem todo o poder para o fornecedor do serviço e nenhuma garantia para quem os utiliza.

É exatamente o que fazem empresas como Google, Facebook, Microsoft e Apple: ao aceitar os termos de serviço e privacidade, sem os quais não é possível fazer uso de Gmail, Facebook, Skype ou iCloud, o cidadão expõem sua vida privada ao poder desproporcional dessas corporações. Com isso elas podem utilizar todo o conhecimento gerado sobre você de maneira quase que indiscriminada. Não importa se elas usam os seus dados simplesmente para vender produtos que você supostamente precisa ou para espionar a sua vida pessoal e profissional. O problema é que se trata unicamente de muito poder nas mãos de uma “pessoa” só. É preciso, no mínimo, equilibrar essa balança.

Atualmente, estamos numa encruzilhada: não podemos mais prescindir dos serviços online que usufruímos, ao mesmo tempo em que deliberadamente entregamos nossos dados a essas empresas (e outras), inconscientes do potencial perigo que isso representa.

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O problema se agrava quando o Estado, que supostamente deveria proteger o cidadão de interesses contrários ao público, acaba se aproveitando de todo esse poder de concentração de dados para também ter acesso a eles, facilitando, assim, seu controle sobre a sociedade. A divulgação da existência do PRISM (o programa de espionagem digital do governo americano) confirma que este tipo de ação vai muito além da “simples” espionagem política, passando inclusive por interesses comerciais.

Indivíduos, e principalmente empresas, deveriam redobrar a atenção antes de decidirem fazer uso de serviços de nuvens públicas, pois tudo aquilo que parecia ser teoria da conspiração confirmou-se graças ao ato de Edward Snowden. Se não fosse por ele, provavelmente ainda estaríamos alheios a tudo o que foi revelado.

A solução, nesse caso, seria a aprovação de leis que ampliem o direto dos individuais para o campo das redes digitais. O projeto de lei do Marco Civil da Internet, em tramitação na Câmara há mais de dois anos, é um primeiro passo nesse sentido.

Além disso, é preciso ficar atento para que o projeto, que nasceu de uma iniciativa popular, não seja descaracterizado, perdendo assim sua função. Hoje, uma alteração no texto original já permite que conteúdo seja retirado da rede sem a necessidade de decisão judicial. Essa é uma mudança inadmissível porque dá margem a “acusações vazias”, que têm intuito apenas de retirar conteúdo que possa desagradar a determinados grupos sociais, como detentores de direitos autorais.

Outro ponto polêmico é a garantia de neutralidade da rede. Ela determina que provedores de infraestrutura não podem ter controle sobre o conteúdo que passa por essa infraestrutura. Se essa garantia cair, provedores poderão filtrar os pacotes de dados para criar planos diferenciados de acesso de acordo com o conteúdo que você quer consumir. Nesse caso, não importará mais quantos “mega” tem o seu plano de acesso à Internet, você ainda assim terá que pagar custos adicionais para poder fazer uso de serviços como VoIP ou streaming de vídeo de forma minimamente decente.

Como se pode ver, os únicos a ganhar com essa decisão são as grandes corporações de telecomunicação, pois elas poderão aumentar suas margens de lucro sem que para isso seja necessário aumentar a sua infraestrutura ou incluir mais gente ao serviço. Tal decisão mudaria drasticamente o modelo de negócio vigente até agora, no qual a largura da banda determina o que você pode fazer na rede.

Por tudo que foi falado até aqui, é importante que elevemos a consciência da população em geral em relação à importância do tema, aumentando assim a pressão popular pela aprovação integral do Marco Civil da Internet. Portanto, converse com seus amigos e familiares sobre o projeto, seja nas rodas de bar ou nas redes sociais.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Telegram: muito melhor que o WhatsApp

Telegram: taking back you privacy
Eu nunca entendi muito toda essa hype em torno do WhatsApp, uma vez que, do meu ponto de vista, sempre houveram alternativas melhores: Viber e Skype sempre ofereceram ligações gratuitas via voip, além das mensagens de texto.

O Hangouts do Google, quando chegou recentemente, trouxe uma novidade interessante que foi o acesso web e integração com o Gmail, o que do meu ponto de vista sempre foi muito atraente, pois nunca gostei de ficar "sacando" o celular a cada 30 segundos para responder a uma conversa com alguém. Algumas pessoas viam no Facebook Messanger a mesma utilidade.

Pois eis que chegou o Snowden e suas denúncias relativas à espionagem da NSA e tudo isso se tornou menos atraente: a ideia de governos e indivíduos espionando a sua comunicação pessoal não agrada a ninguém, mesmo àqueles que utilizam esses aplicativos para nada mais do que mandar a lista de compras para o companheiro(a) ao sair do trabalho.

O Facebook nunca foi famoso pelo respeito à privacidade dos seus usuários; e agora que o WhatsApp foi comprado pelo Facebook, ele perdeu ainda mais atrativos para mim.

A alternativa


Já estou utilizando o Telegram há algum tempo e gostando bastante. Ele não recursos de ligação via voip, mas cumpre a função do WhatsApp com diversas vantagens e possui foco na privacidade (até o site é https por padrão):

  • as mensagens são criptografadas de ponta a ponta
  • possui recursos semelhantes ao SnapChat, onde você cria uma sala privada e decide depois de quanto tempo o conteúdo vai se destruir: sem histórico, sem vestígios e sem armazenamento nos servidores.
  • tem o código aberto e uma API aberta, o que faz com que qualquer um possa implementar um app do Telegram seja em que plataforma for.
  • por conta disso, ele possui acesso web e via aplicativo desktop

Se tudo isso não bastasse, os autores do projeto criaram um novo protocolo que consegue ser extremamente rápido, apesar da criptografia. Você envia e a mensagem chega rapidinho, mesmo em conexões do tipo EDGE. Os criadores estão tão confiantes na tecnologia, que lançaram um desafio para  pagar 200 mil dólares para qualquer um que conseguir quebrar a segurança do protocolo.

Os builds oficiais do projeto são para Android e iOS, mas já há implementações para a Web, Windows Phone, extensão para Chrome e até aplicativos de linha de comando para o Linux.

Tudo isso sem anúncios e com a garantia de que ele nunca será cobrado. Algo que é ainda mais promissor e um grande passo em direção à uma maior privacidade e liberdade é a promessa de que também o código server side do programa será gradualmente liberado, na medida que o desenvolvimento for avançando, pois trata-se ainda de um programa em estágio beta.

Por todas essas razões, eu creio que o Telegram tenha grandes chances de se tornar um protocolo padrão para o envio de mensagens utilizando a Internet e dispositivos móveis. Se você se preocupa com a sua privacidade, deve pensar seriamente em dar uma chance para utilizar o Telegram.

O funcionamento é o mesmo do WhatsApp e após a instalação ele perguntará qual o seu número de telefone e enviará um SMS para confirmar se o número é mesmo seu. Após a confirmação você poderá ver quais pessoas que possui na agenda do seu telefone que já tem o Telegram instalado.

 Se quiser conhecer mais sobre o Telegram, o protocolo criado ou a tecnologia envolvida, acesse o site do Telegram e não deixe de ler a seção FAQ: www.telegram.org.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Cedilha no Ubuntu 13.10 com teclado americano

Há um tempo atrás um amigo me relatou que havia instalado o Ubuntu 13.10 numa máquina com teclado americano e que não conseguia fazer cedilha (ç) com ele. Não consegui reproduzir o relatado em nenhuma das minhas máquinas e acabei sugerindo para ele algumas soluções que encontrei na Internet na época do lançamento.

Recentemente, atualizei uma máquina minha que ainda estava na versão 12.04 e tive exatamente o mesmo problema. Só consegui resolvê-lo quando tentei diversas soluções que encontrei dispersas na Internet.

Relato aqui na tentativa de ajudar alguém com o mesmo problema:

Abra os arquivos com o editor de texto da sua preferência

/usr/lib/x86_64-linux-gnu/gtk-3.0/3.0.0/immodules.cache
/usr/lib/x86_64-linux-gnu/gtk-2.0/2.10.0/immodules.cache

Obs: se você estiver utilizando uma versão 32 bits do Ubuntu, provavelmente terá que substituir "x86_64" no caminho acima, por "x386".

Em ambos os arquivos, altere a linha:

"cedilla" "Cedilla" "gtk20" "/usr/share/locale" "az:ca:co:fr:gv:oc:pt:sq:tr:wa"
para:
"cedilla" "Cedilla" "gtk20" "/usr/share/locale" "az:ca:co:fr:gv:oc:pt:sq:tr:wa:en"

Execute os comandos abaixo no seu terminal:

sudo cp /usr/share/X11/locale/en_US.UTF-8/Compose /usr/share/X11/locale/en_US.UTF-8/Compose.bakup
sed 's/ć/ç/g' < /usr/share/X11/locale/en_US.UTF-8/Compose | sed 's/Ć/Ç/g' > Compose
sudo mv Compose /usr/share/X11/locale/en_US.UTF-8/Compose

force o carregamento dos módulos adicionando as seguintes linhas ao seu arquivo /etc/environment:

GTK_IM_MODULE=cedilla
QT_IM_MODULE=cedilla

reinicie o computador para que as modificações tenham efeito.
Se tiver sucesso, por favor, deixe um comentário no post relatando a sua experiência.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Cliente Open Source Nativo para o Rdio serviço de streaming

Música é uma parte essencial na vida de quase todas as pessoas. Muitos serviços de streaming de música chegaram ao país esse ano e resolvi testar o Rdio, pois uma amiga me falou que assinava o serviço e que estava bastante contente com ele.

Pessoalmente, tenho o meu próprio servidor de música, mas o Rdio oferece um período de teste gratuito e fiquei curiosidade para ver como ele funcionava. Aa facilidade de simplesmente ouvir falar de um determinado artista e já ter acesso imediato às musicas deste é algo bem interessante e que faz toda a diferença para alguém que assina um serviço desse tipo.

A interface web é bastante simples e funcional e você se adapta a ela com facilidade, mas logo senti a vontade de poder controlar a reprodução das músicas através de atalhos do teclado e de ter integração com o o menu do sistema.

Me decepcionei ao entrar no site da Rdio e ver que eles oferecem clientes desktop para Mac e Windows e para as principais plataformas móveis, mas não para GNU/Linux (achei que esse tipo de coisa já tinha acabado...). Isso por si só é algo que faria eu não assinar um produto desse tipo: se quem oferece o produto não se importa com aquilo que eu uso, porque eu deveria me importar com ele?

Mas na busca por um cliente "oficial" encontrei um cliente open source nativo que oferecia boa parte das funções que eu desejava: https://github.com/sgringwe/rdio

Cliente Rdio nativo rodando no meu Gnome Shell
Com ele pude ter acesso a atalhos de teclado, mudando as faixas através das setas do teclado e pausar as músicas com a barra de espaço. Outro ponto importante foi a integração com o menu do Gnome Shell, o que tornou muito mais fácil a tarefa de baixar o volume e controlar as músicas mesmo sem estar na área de trabalho onde o aplicativo estava aberto (utilizo uma extensão que provavelmente facilita isso)

O Rdio para Linux é escrito em Vala e além de ter uma interface praticamente idêntica ao cliente "oficial" tem o código fonte disponível, o que me deixa ainda mais a vontade para usá-lo. Parece que isso foi possível pela rica API do serviço, que permitiu que o autor do programa fizesse um cliente desktop totalmente livre para o serviço.

Como utilizei apenas a conta de testes do serviço, não pude testar recursos mais avançados como sincronização local e outras opções que o Rdio oferece, uma vez que esse tipo de conta gratuita não parece contar com essas opções. Entretanto, pelas issues abertas no Github, eu diria que esses recursos mais avançados não foram implementados, de forma que o aplicativo se restringe às tarefas mais triviais.
Rdio integrado ao menu do Gnome Shell

Apesar disso, gostei do que vi e usei. O aplicativo é rápido, fácil, com interface semelhante à nativa e com os recursos que eu desejava.

Para instalar, o programa conta com um PPA disponibilizado pelo do próprio autor para o Ubuntu.  Mas como  este não estava disponível para a versão atual do Ubuntu (13.10 Saucy Salamander), compilei o fonte através do Github seguindo a excelente documentação do desenvolvedor e não tive problema algum.

Resolvi divulgar aqui pois não vi muita coisa reproduzida na net. Se você assina o serviço da Rdio (ou outro) ou já conhecia o programa, não deixe de escrever as suas impressões nos comentários. :-)

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Primeira Expedição de Dados no Brasil faz visualizações e análises com base de dados do Walmart


Participei da 1ª expedição de dados no Brasil. Um projeto da Fundação Open Knowledge, que acaba de chegar ao país. A experiência foi incrível e só pude dizer que aprendi muito. Convido desde já qualquer um que tenha interesse por dados abertos a participar das próximas edições.

Como o texto do blog da Escola de Dados resume bem tudo que aconteceu, deixo o link aqui:

 Primeira Expedição de Dados no Brasil faz visualizações e análises com base de dados do Walmart

Eu tava ali no fundinho da foto... rss.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Como executar um script dentro de uma sessão do GNU Screen

Ando brincando de minerar Bitcoins (estou fascinado com a tecnologia e preciso me lembrar de escrever algo mais informativo sobre o assunto aqui) e me deparei com um problema.

Ao iniciar o programa de mineração (estou usando o bfgminer) na linha de comando, ele exibe diversas informações e estatísticas relativas ao hardware e ao andamento da sua "mineração". Acontece que eu gostaria de iniciar o programa automaticamente durante o boot. Até aí tudo bem, pois isso é facilmente resolvido criando-se um script e agendando sua execução através do cron toda vez que a máquina reiniciar, mas como fazer depois para acessar os dados do programa depois, inclusive via SSH?

Pensando nisso, achei que uma seção do GNU Screen poderia resolver o problema; mas como executar o script dentro de uma seção do Screen automaticamente? A solução para isso eu achei em algum lugar no stackoverfow.com:

Acrescentei as seguintes linhas ao meu script:

screen -dmS nomeDaSessão
screen -S nomeDaSessão -p 0 -X stuff "comando$(printf \\r)"


Explicando:
  • -dmS inicia uma sessão "detached" do screen com o nome escolhido por você.
  • -X stuff executa o comando ou script dentro da sessão especificada pelo atributo -S.
  • -p 0 especifica o número do terminal dentro da seção do Screen. Como ela só tem um terminal rodando dentro da seção, este começa no 0.
  • $(printf \\r) insere um caractere do tipo "Enter" logo após o comando ou script passado como atributo para, de fato, entrar com o comando.

Bônus


Screen -S nomeDaSessão -p 1 comando2

executa o comando2 em um novo terminal (o de nº 1) dentro da mesma seção do Screen.

Homepage do GNU Screen: https://www.gnu.org/software/screen/

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